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JANEIRO 7, 2026
Bem-estar

Que letra mais linda, que tempo mais bacana. E que paz.

Que letra mais linda, que tempo mais bacana. E que paz.

A vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de, por acaso, descobrir a palavra salvadora“. Essa frase da Clarice, entre tantas, foi talvez a que mais tenha me marcado. Anos depois, eu li, não me lembro de quem era, uma que dizia que a grande dificuldade da vida era, entre cem caminhos, ter de escolher um e viver para sempre a nostalgia dos outros noventa e nove. Ambas, acho, falam sobre o tempo e sobre uma coisa antagônica em mim: o entendimento de que a vida está no que está posto – e não há palavra salvadora – e a vontade de pirotecnias, um lamento com tudo que não é acontecimento – porque sempre, em algum momento quando anoitece, a festa é “em outro apartamento”.

Um pouco desse sentimento sempre me voltava quando entrava em férias. Ficava imaginando mil coisas para fazer com esse artigo de luxo que é o tempo, e o que se realizava sempre parecia menor do que a promessa das expectativas. Havia, sempre, a necessidade de apreender o intangível, reter sei lá bem o quê, eu montada nesse existencialismo sem fim, querendo toda a alegria e toda a felicidade e todo o prazer e todo o gozo, querendo a vida inteira, leite e mel. Eu querendo ter a percepção do dia inteiro, da noite inteira, amando estar acordada na madrugada, para guardar o vivido daquilo que, no sono, sempre me pareceu desperdício.

Nessas últimas duas semanas, tempo de férias, fui na contramão: não fui atrás de fogos de artifício, mas de silêncio de contemplação. Fui o mais perto da vida corrente em seu próprio fluxo, o tempo escoando os dias, um após o outro, sem precisar estar em algum lugar. E parece que, não buscando nada, nada me faltou.

Aí, hoje cedo, li o texto de um amigo sobre a passagem do tempo e sobre as inevitáveis despedidas, sobre o mundo se esvaziando (e talvez a arte de perder não tenha em si nenhum mistério, como escreveu a Bishop).

Aí, agora à noite, pensando no recomeço de amanhã, lembrei desta canção do Lenine, que ouvi muito na semana passada.

Aí, talvez, talvez, seja isto: enfim, serenidade. Enfim, o amor como lugar de repouso. Enfim, só o que me interessa. E aí- vai entender! – e aí, então, a revelação dessas coisas muito secretas: a lógica do vento, a fórmula do acaso, a voz da intuição.

Que letra mais linda, que tempo mais bacana. E que paz.

05/08/2019

***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***

Daqui desse momento

Do meu olhar pra fora

O mundo é só miragem

A sombra do futuro

A sobra do passado

Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo

E transformar a perda

Em nossa recompensa

Quando eu olhar pro lado

Eu quero estar cercado

Só de quem me interessa

Às vezes é um instante

A tarde faz silêncio

E o vento sopra a meu favor

Às vezes eu pressinto

E é como uma saudade

De um tempo que ainda não passou

Me traz o teu sossego

Atrasa o meu relógio

Acalma a minha pressa

Me dá sua palavra

Sussurra em meu ouvido

Só o que me interessa

A lógica do vento

O caos do pensamento

A paz na solidão

A órbita do tempo

A pausa do retrato

A voz da intuição

A curva do universo

A fórmula do acaso

O alcance da promessa

O salto do desejo

O agora e o infinito

Só o que me interessa

A lógica do vento

O caos do pensamento

A paz na solidão

A órbita do tempo

A pausa do retrato

A voz da intuição

A curva do universo

A fórmula do acaso

O alcance da promessa

O salto do desejo

O agora e o infinito

Só o que me interessa

(Só o que me interessa – Lenine)

Autora: Cristiane Costi e Silva. Professora. Apaixonada pelas palavras. Achando, como bem disse Adélia Prado, que “a coisa mais fina do mundo é sentimento”.

Sobre a imagem destacada

Imagem – cedida pela autora –  coletada na internet sem identificação de autoria. Caso conheça autora (autor) da fotografia, por favor, comunique com Histori-se para registrarmos.

 

 

 

Patrícia

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